Cozinhando memórias

Eu tenho essa coisa com a saudade, né?!
Sempre senti saudade. Em todas as épocas da minha imprevisível vida.

Quando era criança, morava em Irajá no RJ, sentia saudades de Pirassununga, onde nasci e da casa na Tavares Guerra no bairro do Cajú, também no RJ.
Detalhe, eu nasci em Pirassununga e fomos morar no RJ eu tinha 3 anos e no mesmo ano nos mudamos pra Irajá. Eu não tinha memória disso, mas sempre gostei de ouvir as histórias que minha mãe  contava. Ela falava e parecia que toda a cena se formava na minha cabeça. Então eu sentia saudade.


Depois as saudades foram se acumulando... Saudade da escolinha no Centro Comunitário do 1059; da Tia Adelair, Tia Nádia e Tia Nelinda do Educandário... Saudades do meu Isamael... Depois de Jandira, Philadelpho e Neusa. Saudade do dia que eu voltei sozinha de ônibus do Colégio Percepção em Vaz Lobo, queria fazer uma surpresa pra minha mãe porque a última aula foi cancelada. Uma surpresa e tanto. Não existia celular naquela época... Saudade de quando fiquei menstruada e chorava que queria minha infância de volta... Depois o bailinho do condomínio, primeiro beijo e tal... Mello Tênis Clube, as amigas eternas de escola... Saudades Newton Braga... Saudades Arraial do Cabo e depois a grande perda da fase da adolescência, minha tia querida.
Saudades de quando eu já trabalhava e minhas amigas não; pagava abadá pra geral ir comigo enlouquecer nas micaretas do Riocentro com picada de cobra... Aí SP entrou (denovo) na minha vida. Primeiro trabalho aqui... Saudade da magia daquele momento. E veio uma sucessão de trabalhos e pessoas e fases... Fazem doze anos já.


Nessa pandemia é meio sem sentido #tbt , porque antes a gente postava foto de anos atrás, agora é saudade do carnaval desse ano. Não faz sentido.


Essa segunda foto foi do meu primeiro aniversário em SP, sem minha família e amigos cariocas. Estava completamente apaixonada... 28! Na minha primeira casa, em Pinheiros. Morei lá até o ano passado. Quando cheguei era tudo mato, ponto de travesti e cassino clandestino. Saudades... Meus pais e amigos cariocas montaram a casa pra mim. Porra... Eu valorizo demais isso.

Há um ano vim morar na Barra Funda, o sonho de ter um espaço pra fazer festas, cozinhar, beber, fazer e receber arte, de quebra ainda levantar um dinheiro... Quem sabe um futuro coletivo...

Aí veio a pandemia. E ironicamente, a única forma de evitarmos a devastação é ficando isolado. O ser coletivo vem do isolamento. E sem aglomerar pessoas, não tem como trabalhar; pelo menos pra mim. Meu trabalho é no meio das pessoas.


Sem trabalho
Sem dinheiro
Sem pagar contas... Como continuar?


Daí uma possibilidade remota e negada há muito tempo; se torna a via possível de continuar.


Me desfazer dessa "casa" que construí nessa São Paula que tenta me expulsar faz tempo, dói. Dói sim. Já chorei, já deprimi, senti raiva, ódio... Mas como cês sabem, eu arranco logo o bandaid.

Hj esses eletrodomésticos, que já cozinharam tantas e tantas histórias; vão fervilhar e zelar outra família com suas próprias histórias.

"As melhores coisas da vida, não são coisas"


Breeeeeeeegaaaa! Clichêzão!
Mas é isso daí mesmo.


Me preparando aqui pra encher o caminhão da saudade das quais sou feita.

Afinal, também tem "ir" em partir!



Comentários

  1. Saudade é a certeza, a longo prazo, de que o vivenciado foi bom e valeu a pena! ;-)

    ResponderExcluir

Postar um comentário