Arrancando o bandaid

Eu fui o tipo de criança que se machucava sempre. Eu corria muito e tinha os joelhos virados pra dentro, então eles batiam um no outro. 
Eu caía.
Um dia eu cai e bati com a boca no chão. Nesse mesmo dia tinha uma festa da escola e eu ia dançar aquela música do Gugu, do pintinho amarelinho. Na fantasia tinha um bico de papel que cobriu o tamanho do bico que eu fiquei, mas nada foi capaz de disfarçar o ódio no olhar da dor que eu sentia.
Eu chorava pouco. 
E é assim até hoje.
Eu não choro. 
A não ser que seja de ódio. Se eu não posso matar meu ódio eu choro de impotência.

Também não sou de prolongar as dores. 
Eu caio, 
machuco, 
choro escondido de dor, 
depois de ódio; 
aí eu levanto, enxugo as secas lágrimas, respiro fundo e tomo decisões. 

Geralmente práticas, rápidas e assertivas. 
Cortes cirúrgicos. 
Substituições necessárias. 
Sempre extremistas.

Fui da época do ardente Merthiolate. Ardia. Muito. Mas curava e era rápido. 
Logo passava. 

A criança que fui diz muito sobre quem sou hoje, beirando os quarenta. 
Dificilmente demonstro ou deixo claro o que sinto, através da minha fala. 
Mas o meu olhar denuncia tudo o que está acontecendo aqui dentro. 
E te digo; nunca é algo simples. 

É tudo complexo, intenso e brutal. 
Nada é suave e delicado. 
É tudo muito forte. 

Mas uma coisa é diferente de quando era criança. 
Eu quase não caio. Talvez seja o resultado positivo de ter usado aquelas botas ortopédicas horríveis. 
É preciso uma porrada muito grande pra me fazer cair. 
E quando eu caio, não espero a contagem chegar no dez pra voltar pra luta. 
Eu me condicionei a isso. Ninguém mandou, foi eu quem quis.

E quer saber? Eu gosto. Prefiro. 

Tem suas desvantagens também... 
A vida entrou numa disputa comigo. 
Ela e o destino, vivem me desafiando. É golpe atrás de golpe e as vezes, é golpe baixo. 
Mas eles sabem, eu não caio. 
Eu recupero.

O problema é que eles estão se especializando e assim como uma vacina, eles estão cada vez mais cavando meu calcanhar de Aquiles. 


Mas eu não caio.
Eu não choro.

Eu arranco logo o bandaid.


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